• Trunca

Golondrina Ferreira

Atualizado: 12 de dez. de 2019





Golondrina Ferreira é metalúrgica, poeta e militante dessa vida. Dos três ofícios, o de poeta é o mais recente mas diz estar aprendendo nos três.

Abaixo, uma seleção de seus poemas do livro "Poemas para não perder", lançado pelas Edições Trunca em 2019.


SEGUNDA


As máquinas, mortas.

Nós, vivos.

Logo se inverte a coisa.


A fábrica tem fome,

passou um dia inteiro

de barriga vazia.


Então abre suas bocas de catraca

e nos seus dentes vamos passando

um a um.


Dá o sinal:

nos mastiga


e joga o bagaço fora

no fim da jornada.


--


ENTRANDO NA LINHA


Não era isso que você queria

quando procurou emprego?

As condições já não estavam

no contrato?


Que parte faltou entender

de que o ar condicionado

é ajustado para as máquinas

e não pra você?


Que parte você não entendeu

de que lá fora é pior,

que para o teu posto

tem pelo menos mais dezoito na fila?


Você ainda não se deu conta

que greve é coisa de vagabundo

e organização, de terrorista?


Todas as semanas você consegue,

por que hoje não?

Todos os outros conseguem,

por que você não?


Viu, é simples:

abaixe a cabeça

respire contido

feche as pernas

feche a cara

feche a boca

pinte as unhas.


Não responda

nem questione

de preferência

não pense

mais que o estritamente

necessário.


Isso, muito bem.

Gostei de ver.


Quem olha nem imagina

que você sabe sorrir

e desobedecer.


--


INFORME


Será possível que precisemos escrever

Para que nossos compatriotas entendam

Que aqui não é a China

Mas pode ser pior?


Será preciso contar, ainda que pareça natural

Que se trabalha seis dias por semana

Alguns trabalham seis noites

E outros trabalham uma semana

de dia e outra de noite?


Será preciso dizer, mesmo que doa,

Que o material corta a luva e os dedos

Mas é preciso aguentar

Pois uma luva mais forte

sai muito cara pra empresa?


Precisaremos falar, ainda que incomode

Que o salários aqui são de mil reais por mês

Os aluguéis de quinhentos

E as pessoas têm de um a três filhos?


Terá que ser dito, ainda que não se entenda

Que operamos nove máquinas

Ao mesmo tempo

E uma tela de 32 polegadas pisca em vermelho

à vista de todo o prédio

Quando alguma delas não produziu o suficiente?


Teremos que repetir, ainda que dê raiva

Que nossos bebês com três meses tenham que comer comida

Porque com quatro meses

Voltaremos a trabalhar?


Haveremos de relatar, ainda que canse

Que as luzes são muito fortes para não dormirmos

Que é proibido conversar

Assim como comer, olhar o celular

Ou sair do seu posto de trabalho?


Ainda faltará dizer

Que passamos oito horas olhando pecinhas minúsculas fazendo

o mesmo movimento com as mãos

Dentro de um cubículo de lata de um metro quadrado

Para evitar distrações?


Vai ter que ser dito, ainda que nojento

Que o banheiro também é usado

Para dormir e comer

Porque não há lugar próprio para isso

E dentro da fábrica é proibido mesmo no horário de pausa?


Teremos que dizer, ainda que agonie

Que cheiramos álcool acetona

Respiramos pó de alumínio zinco estanho

às vezes ficamos tontas mas saímos dar uma volta

E retornamos ao trabalho?


Será preciso mesmo escrever, ainda que atordoe

Que o barulho é de cem decibéis

Quando o permitido é oitenta

Mas não se paga insalubridade

Pois o protetor de ouvido abafa um pouco o som


Será preciso dizer, ainda que assuste

Que quem se acidenta é culpado e demitido

Por isso escondemos os cortes

Fazemos os próprios curativos

E não contamos pra ninguém?


Mas se faz falta dizer, será dito, mesmo com fome

Que as pausas são de uma hora

A comida é ruim e cara

Não há lugar para descanso

E muitos não param nem esse tempo para conseguir bater a meta


Teremos enfim que gritar, ainda que nos dê vergonha

Que a cada falta nos descontam 20% do salário

Mesmo que seja por doença

E por isso não faltamos

Nem mesmo quando adoecemos?


Diremos, se é necessário, mesmo sendo alarmante

Que depois do trabalho tansporte e do sono recomendado

sobram três horas de vida útil

De modo que às vezes não vemos os filhos

E às vezes não dormirmos.


Agora que já não se pode mais

Voltar atrás na leitura desse poema

É você quem​ nos diz

A essa altura do relato

E de posse de todas essas informações

O que é mesmo que você vai fazer?


--


ATESTADO


Atesto para os devidos fins

que a paciente não se encontra

em condições para o trabalho


avisem os chefes

suspendam as metas

reportem aos gerentes de RH


ela se encontra

afoita

eufórica

tremendamente apaixonada


devendo permanecer afastada de

suas atividades

até que o modo de produzir a vida

não seja o de matar

o amor.


--


AOS QUE DESANIMAM


Gostaria de te acordar com beijos

e boas notícias

- o sol saiu,

os pássaros comemoram,

as crianças brincam no pátio,

vem visita de longe,

ninguém mais vende seu trabalho,

ninguém manda sem trabalhar.


Mas o inimigo ainda é soberano,

está por todos os lados

e dentro de nós.

Nos submete

e inverte todas as coisas:


nosso suor vira o seu produto,

uma pequena parte vira o nosso preço

e não conseguir ficar rico

vira um fracasso individual.


Cultura vira ideologia,

cooperação vira concorrência,

nosso amor vira controle,

sexo vira violência.


O que era tempo vira trabalho,

o que era nosso vira alheio,

o que era história vira

esquecimento.


Gostaria de te acordar com carícias

e boas notícias,

mas ainda há muito pra ser feito.


Estamos cansados, você diz,

foram tantas derrotas...

somos poucos e estamos

pior do que antes,

o inimigo matou

os que não pôde cooptar


Gostaria de te consolar com um abraço

e boas notícias,

mas você tem razão

- somos poucos e estamos cansados,

no entanto ninguém,

senão nós,

poderá fazê-lo.


Nós, com todos os nossos defeitos,

com nosso cansaço,

com as marcas da derrota,

com nossos mortos por vingar.


Com toda a escuridão

por cima dos ombros

nos curvando,

com a potência de derrubar toda ela

ao levantar.


--


A POESIA INSISTE


... como?

isso mesmo. não pode

escrever poesia

nos bolsos

assim como não pode

andar, falar, parar.

é justo, é necessário

é pela sua segurança

é o certo e vocês já foram

advertidos.


ah claro, sim

senhor,

me desculpe,

não seja por isso,

não se preocupe.


eu vou escrever

com marretas

no teto

com graxa

nas paredes

com a trincha

no chão.


proíbam e eu escreverei

com as unhas

na lataria das máquinas

com chaves

riscando os robôs


impeçam e será com pincel

nos muros

com facas nos troncos

com ar comprimido

na noite


demitam-me

e escreverei

com um arado na terra

com a foice

nas plantações


prendam-me

e ela estará

nas paredes dos calabouços

com gotas

de sangue no chão.


com formões

nas cabeças mais duras

com uma bala

nos vossos peitos


cortem meus dedos

e eu escreverei

com os olhos

no horizonte

com a língua

em alguma boca

com os pés na areia

escreverei

com o nariz no céu.


(Golondrina Ferreira)


--


NOVOS VELHOS TEMPOS


os lobos ameaçam voltar pra rua

sem as carapaças

de cordeiro

estão com medo de quê?


acaso não foram suficientes

os anos de mordaça

participativa

chicote eletrônico

acesso ao consumo

de segunda classe

e às dívidas?


vocês sabem do que somos capazes

quando às vezes nós mesmos

esquecemos


***


são tão perversos os lobos

quanto os cordeiros

são faces da mesma moeda

funcionários

do mesmo patrão


eles usam as armas

apenas quando necessário


eles usam as armas

sempre que necessário


o que muda é se vamos sangrar

de emboscada numa esquina

ou morrer um pouco por dia

no sufoco das catracas


se vamos perder os dedos

na tortura

ou nos acidentes de trabalho


se vamos ser mortos

nas avenidas

ou nos becos escuros da periferia


se vamos ser ameaçadas e

estupradas

nas ruas

ou na sutileza dos lares


o que sim, faz muita diferença,

mas que, em última instância,

nos mata, nos mutila, nos estupra.


***


juntemo-nos, vítimas da barbárie

os que estão surpresos com ela

os que já acham que ela é natural


não se trata de escolher

o terreno pra lutar

(nunca pudemos)


e quando o cerco aperta

não nos resta

senão ficar em pé


ainda que seja

por teimosia

por não ter pra onde correr


só nos resta

encher o peito

segurar as mãos

abrir bem os olhos

e atender às novas exigências:


será preciso voltar

a usar metáforas

voltar a compor


voltar

a pintar muros

a saber se defender


vamos precisar

voltar a conspirar

comunicar sem alarde


tecer outras redes

a olhar as portas

e retrovisores


a se esconder nas casas

de amigos

e abrir as nossas


atentar às armadilhas

aos cordeiros que contra os lobos

vão querer nos jantar


será preciso aprender a cuidar

sem temer

preparar

sem parar

e juntar

sem ceder


***


não será a primeira, camaradas.

mas pode ser a última.






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