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HOMEM PRESO QUE OLHA PARA O SEU FILHO

Atualizado: 3 de fev. de 2020





HOMEM PRESO QUE OLHA PARA O SEU FILHO


Quando eu era como você me ensinaram meus pais

e também as professoras bondosas e míopes

que liberdade ou morte era uma redundância

quem podia imaginar em um país

onde os presidentes andavam sem capangas


que a pátria ou a tumba era outro pleonasmo

já que a pátria funcionava bem

nos estádios e nos pastoreios


realmente meu filho eles não sabiam nada

pobrezinhos acreditavam que liberdade

era só uma palavra aguda

que morte era palavra grave

e cárceres por sorte uma palavra esdrúxula


esqueciam de por o acento no homem


a culpa não era exatamente deles

mas sim de outros mais duros e sinistros


e estes sim

como nos espetaram

na limpa república verbal

como idealizaram

a vidinha de vacas e estancieiros


e como nos venderam um exército

que tomava seu mate nos quartéis


a gente nem sempre faz o quer

a gente nem sempre pode

por isso estou aqui

olhando pra você e sentindo sua falta


por isso é que não posso te despentear o cabelo

nem te ajudar com a tabuada do nove

nem te golear numa pelada


você já sabe que tive que escolher outras brincadeiras

e que brinquei todas elas de verdade


e brinquei por exemplo de polícia e ladrão

e os ladrões eram policiais


e brinquei por exemplo de esconde-esconde

e se te achavam te matavam

e brinquei de pega-pega

e escorria sangue de quem era pego


meu filho ainda que tenha poucos anos

acho que tenho que te dizer a verdade

para que não a esqueça


por isso não te escondo que me deram choques

que quase me arrebentam os rins


todas essas chagas inchaços e feridas

que seus olhos redondos

olham hipnotizados

são duríssimos golpes

são botas na cara

muita dor para que te esconda

muito suplício para eu apagar


mas também é bom que saiba

que teu pai calou

ou xingou como um louco

que é uma linda forma de calar


que teu pai esqueceu todos os números

(por isso não poderia te ajudar nas tabuadas)

e portanto todos os telefones


e as ruas e a cor dos olhos

e os cabelos e as cicatrizes

e em qual esquina

em que bar

que parada

que casa


e lembrar de você

da tua carinha

me ajudava a calar

uma coisa é morrer de dor

e outra coisa é morrer de vergonha


por isso agora

você pode me perguntar

e mais que tudo

eu posso responder

a gente nem sempre faz o que quer

mas tem o direito de não fazer

o que não quer


chore apenas meu filho

é mentira

que os homens não choram

aqui choramos todos

gritamos berramos assoamos esperneamos

porque é melhor chorar que trair

porque é melhor chorar que se trair


chore

mas não esqueça


(Mario Benedetti, Uruguai, 1920-2009, tradução: Lucas Bronzatto. Imagem: Antonio Berni)

#poesia #mariobenedetti #ditadura #uruguai

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